terça-feira, julho 24, 2012

SOBRE A RACIONALIDADE DA CRENÇA EM DEUS

Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais. Importa, pois, ao discutirmos o problema da existência de Deus, nos esclareçamos primeiro a nós mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, até onde é possível uma demonstração.
O conceito de Deus, reduzido à sua abstração definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade, e outros assim, que, como já notamos têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema.
Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, (1) que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente (2) que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente activa. Nada mais está substancialmente incluído na demonstração da existência de Deus, propriamente dita.
Reduzido assim o conteúdo do problema às suas proporções racionais, resta saber se existe no raciocínio humano o poder de chegar até ali, e, chegando até ali, de ir mais além, ainda que esse além não seja já parte do problema em si, tal como o devemos pôr.

Fernando Pessoa, in 'Ideias Filosóficas'




A crença em Deus assenta em o que podemos chamar um acto de fé racional. Consciente ou inconscientemente, o movimento do espírito é este: (1) Tudo quanto existe é efeito de uma causa; o universo existe; portanto o universo é efeito de uma causa. (2) O efeito não pode conter mais que o que está contido na causa, (pois então seria efeito de mais causas que uma); o universo, no mais alto ponto em que nós o conhecemos, que é o homem, contém a consciência; portanto a causa do universo deve conter a consciência, isto é, deve ser uma Causa consciente. (3) O efeito não pode conter tudo quanto se contém na causa, pois então seria idêntico à causa, e não haveria causa nem efeito; o universo é múltiplo, extenso (no tempo e no espaço, ou no espaço-tempo) e diverso (isto é, composto de coisas não só muitas mas diferentes entre si); portanto a causa do universo tem que conter mais que multiplicidade, ou seja totalidade, mais que extensão, ou seja infinidade, mais que diversidade, ou seja plenitude. Cumpre advertir que totalidade se diferencia de plenitude em que o primeiro é um conceito quantitativo, o segundo qualitativo: assim a totalidade do prazer seria a soma de todos os prazeres possíveis, a plenitude do prazer a concentração em um só prazer do que se acha contido na diversidade de todos.
Por qualquer especulação desta ordem, em geral subconsciente ou instintiva, chega o homem à crença racional na existência de Deus. Que é racional, já o vimos, não esqueçamos porém que é simples crença, pois parte de princípios naturais, instintivos, mas dialecticamente contestáveis.
(...)
A existência de Deus é, pois, indemonstrável, mas é um acto de fé racional, natural portanto — inevitável até — em qualquer homem no uso da sua plena razão.
E tanto assim é que o ateísmo anda sempre ligado a duas qualidades mentais negativas — a incapacidade de pensamento abstracto e a deficiência de imaginação racional. Por isso, nunca houve grande filósofo ou grande poeta que fosse ateu.
(...)

1915?
Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968.
 - 76

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

para fazer teorias cientificas notaveis é necessario certo grau de abstração teorica e logica e há varios que não são metaficistas e o conseguem fazer muito bem..

25 de julho de 2012 às 02:45:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

Fernando Pessoa era judeu...sabias disso?

25 de julho de 2012 às 18:43:00 WEST  
Anonymous Anónimo said...

«Por isso, nunca houve grande filósofo ou grande poeta que fosse ateu.»

Nietzsche era ateu.

25 de julho de 2012 às 19:22:00 WEST  
Blogger Caturo said...

«Fernando Pessoa era judeu...sabias disso?»

Claro que não sabia, visto que isso é falso.

25 de julho de 2012 às 20:38:00 WEST  
Blogger Caturo said...

«o "problema" dessas teorias, é que quem as escreve, escreve para defender a existência de Jeová, o deus único...e nunca para defender a existência de um Júpiter, de um Marte, de um Bandua, de um Nabia, etc, etc esta insistência do Gladius em fazer esta confusão entre defesa de religião cristã,»

O ex-ariano mais uma vez demonstra que não é de todo capaz de interpretar o que lê. Não percebe que há uma diferença em termos argumentativos entre o discurso que defende a crença no Divino e o discurso que defende a crença no Divino especificamente cristão. Um argumentador cristão pode usar qualquer dessas argumentações, às vezes num mesmo comentário, mas isso não significa que a sua parte genericamente religiosa dependa forçosamente da sua parte especificamente cristã. Ou seja, podem-se pegar em certas partes do seu discurso e defender-se outra religião qualquer (quer ele goste disso quer não goste, não vem ao caso).
De resto, os cristãos fizeram exactamente isto, ao apropriarem-se do discurso platónico, que é original e primordialmente pagão.



«com defesa de religião em abstracto, é propositada. é uma tentativa de se enganar a si mesmo,»

Mais uma vez, só o ex-ariano é que se engana a si mesmo, por não perceber que partes do discurso de certos indivíduos que por acaso são cristãos servem mesmo para defender a religião em abstracto, sem que isso comprometa com o Cristianismo quem usar essas partes do discurso.



«de fazer de conta para si mesmo que quem defende a existência de "deus" (singular) está muito preocupado com todas as religiões,»

Mais uma vez, não interessa a intenção de quem originalmente proferiu o discurso. E se este for virado contra a pessoa, tanto pior para ela.

11 de outubro de 2012 às 18:51:00 WEST  

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